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Ex-criminosos se unem na luta contra a violência em Londres

| REINO UNIDO, DETENÇÃO DE BRASILEIRO EM LONDRES | 11/04/2018

Cidade vive onda de ataque com facas e passa Nova York em número de mortes

LONDRES — Ex-traficante de drogas que colabora com uma organização contra grupos criminosos, Abdi se tornou neste final de semana uma vítima daquilo que deseja combater, a onda de crimes em Londres, ao ser esfaqueado pela segunda vez em pouco tempo.

Aos 26 anos, e desde que saiu da prisão no ano passado, Abdi ajuda a atrair jovens para um programa para evitar que caiam nas redes do crime. Tudo isso num contexto de um aumento dos assassinatos, a maioria por facadas, que fez com que Londres registrasse 50 mortes violentas em 2018 — mais do que Nova York. Os ataques com arma branca já haviam aumentado 23% no ano passado.

— Só digo: “Irmão, você tem duas opções. Uma é ir para o caixão. A outra é uma sentença de 35 anos. Não há escapatória” — disse à AFP em uma entrevista no começo do mês, antes de ser esfaqueado no último final de semana. — É uma mentalidade que queremos mudar.

Abdi foi atacado no sábado, quando estava com amigos no norte de Londres, semanas depois de ser esfaqueado quando ia para o trabalho. Sua sobrevivência parece um milagre: os agressores miravam a garganta, mas ele conseguiu conter o ataque com a mão, que foi ferida.

Ele conta que também se deixou seduzir pelo crime.

— Todo rapaz de bairro periférico de Londres quer carros velozes, mulheres, roupa cara… A boa vida, não? — admitiu durante uma entrevista no estádio de futebol do Queens Park Rangers, Loftus Road, no oeste de Londres. — Muitos rapazes do país gostariam de ter essa vida. Mas é preciso trabalhar duro. Nada vem fácil. Agora eu digo o que eu costumava ouvir dos mais velhos.

A ministra do Interior, Amber Rudd, culpou nesta segunda-feira o comércio de crack pelo aumento dos assassinatos e prometeu “fazer o necessário” para acabar com a onda de crimes: do endurecimento das leis ao financiamento de mais programas para jovens.

“VENCEREI”

Abdi trabalha como mentor de jovens para Key4Life, uma organização criada em 2012, pouco depois de uma série de distúrbios por todo o país. Outro mentor é Anthon Dinnall, de 24 anos, que foi preso por roubo. Os dois vão a bairros da periferia identificando jovens que correm risco de serem recrutados por criminosos. A fundadora da Key4Life, Eva Hamilton, considera esses rapazes seus “discípulos”.

Abdi — nascido na Inglaterra de pais somalis — disse que não pode levar a vida de quando vendia drogas, porque ganha muito menos dinheiro, mas que acha seu trabalho atual gratificante.

— Ajudo as pessoas que estão na mesma posição em que eu estava há cinco anos. Tem gente que não nasceu nesse país que está sendo detida, e digo para essas pessoas: “Por acaso sua mãe e seu pai vieram de tão longe para que você vendesse droga e fracassasse na vida?”

Abdi conheceu a Key4Life quando voluntários o visitaram na prisão.

— É normal que eu lhes mostre a mesma lealdade que eles tiveram comigo — explicou.

O jovem narra a satisfação que sentiu ao voltar à prisão londrina de Brixton, onde passou a parte final de sua condenação de três anos, como um homem livre, disposto a ajudar os outros.

— Eu não estava preso, não me diziam o que eu tinha que vestir, quando tomar banho, o que vestir, quando comer — relembra, com orgulho. — Senti que eu era alguém na sociedade. Não vou permitir que o sistema me dobre. Não perderei, vencerei — insiste.

 

Fonte: O Globo https://oglobo.globo.com/mundo/ex-criminosos-se-unem-na-luta-contra-violencia-em-londres-22576972

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