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Como entender as eleições no Reino Unido

| Notícias em Londres e Reino Unido, Londres, Política em Londres e Reino Unido, Eleições no Reino Unido, Política no Reino Unido | 08/06/2017

 

O Reino Unido está indo às urnas, de novo. Nesta quinta-feira, 8, os britânicos irão votar no próximo governo. E, desde que a campanha começou, o país teve de re-imaginar qual é o significado dessa eleição. Se os analistas antes previam uma vitória confortável, muitos agora sugerem uma disputa muito mais acirrada, com resultados imprevisíveis. A seguir, algumas perguntas importantes sobre o pleito.

Mas, espere aí, o Reino Unido não acabou de ter uma eleição?
Sim. Na verdade, será o terceiro ano consecutivo em que o Reino Unido realiza uma grande eleição nacional – quarto, se incluirmos o referendo sobre a independência da Escócia em 2014, quando apenas os escoceses tiveram voto.

O Reino Unido elegeu seu último governo em 2015. No verão passado, realizou um referendo sobre a saída da União Europeia. O resultado chocante levou o primeiro-ministro David Cameron à renúncia. Ele foi substituído por Theresa May, vitoriosa em uma disputa interna pela liderança do Partido Conservador.

Então por que voltar às urnas agora?
Em abril, May renegou suas promessas de não realizar eleições antecipadas e anunciou que o país votaria em um novo governo no dia 8 de junho.

Os analistas apontaram vários fatores nessa decisão de May, incluindo a possibilidade de ela aumentar a maioria dos conservadores no parlamento para negociar a saída da União Europeia. Outro fator provável: as próximas eleições do Reino Unido deveriam se realizar em 2020 – possivelmente no meio de complicadas negociações do Brexit. Então, antecipar as eleições pode simplificar o processo.

De acordo com a Lei dos Mandatos Fixos para o Parlamento de 2011, as eleições devem ser realizadas a cada cinco anos. Mas a primeira-ministra conseguiu antecipar o pleito com o apoio do Partido Trabalhista, atualmente na oposição.

Como funciona a eleição?
O Reino Unido tem um sistema parlamentar com votação majoritária nominal – diferente tanto do sistema presidencial dos Estados Unidos quanto da representação proporcional observada em alguns parlamentos europeus. Isso quer dizer que os britânicos votam para escolher um representante local para o parlamento. O partido que conquistar mais cadeiras no parlamento formará o governo, com o líder do partido no cargo de primeiro-ministro.

Ao contrário da representação proporcional, o sistema muitas vezes infla as maiorias – o que significa que um partido não precisa receber 50% dos votos para ter maioria no parlamento. Historicamente, isso resultou na formação de um sistema partidário dominado pelos conservadores de centro-direita e pelos trabalhistas de centro-esquerda.

Quem são os principais candidatos a primeiro-ministro?
Os candidatos dos partidos mais populares do Reino Unido são:
Theresa May, do Partido Conservador. May foi a grande surpresa da disputa do ano passado para a sucessão de David Cameron, superando nomes mais conhecidos, como Boris Johnson. Depois de ser secretária de Estado por seis anos – um cargo importante, que inclui responsabilidades de segurança nacional – May se tornou a segunda primeira-ministra da Grã-Bretanha, depois de Margaret Thatcher. É considerada experiente pelos observadores políticos, mas pareceu desconfortável durante a campanha. May se opôs ao Brexit durante o referendo. Apesar disso, adotou uma abordagem rígida nas negociações.

Jeremy Corbyn, do Partido Trabalhista. Por décadas, Corbyn foi uma figura relativamente obscura na extrema esquerda trabalhista, mais conhecido por seus discursos em manifestações contra a guerra do que por sua atividade política. Mas, depois que o Partido Trabalhista sofreu uma derrota inesperada nas eleições de 2015, as peculiaridades das dinâmicas internas do partido lhe deram a liderança.
Corbyn já foi chamado de inelegível e enfrentou uma considerável oposição dentro do próprio partido, mas suas políticas radicais e pró-gastos ganharam um bom número de eleitores jovens. Corbyn fez campanha pela permanência do Reino Unido na União Europeia antes mesmo do referendo de 2015. O Partido Trabalhista agora apoia o Brexit, mas quer um estilo de negociação menos conflitante.

Tim Farron, dos democratas liberais. Farron é o líder do terceiro maior partido britânico desde 2015, quando assumiu o cargo de Nick Clegg, então vice-primeiro-ministro. No entanto, Farron tem tentado chamar a atenção da mesma maneira que seu antecessor e enfrentou críticas ao se recusar a dizer se considerava pecado ser homossexual. Os democratas-liberais são um dos partidos mais pró-União Europeia da Europa e, sob o comando de Farron, prometem impedir um “Brexit difícil” com outro referendo, o qual poderia permitir que o país permanecesse na Europa.

Então May antecipou as eleições. Isso quer dizer que ela acha que vai ganhar?
Quando a primeira-ministra convocou as eleições, tinha bons motivos para acreditar que, além de ganhar, ganharia com uma bela vantagem. Corbyn era considerado um líder ineficiente, na melhor das hipóteses. Mesmo os políticos de seu próprio partido previam uma “derrota histórica e catastrófica”, com alguma preocupação de que o Reino Unido poderia se tornar um Estado de partido único.

No entanto, nas semanas que se seguiram à convocação das eleições, os números do Partido Trabalhista se recuperaram dramaticamente. A maioria dos analistas colocou o fato na conta das estranhas aparições de May durante a campanha, o que contrasta com a atitude mais relaxada e as políticas populistas de Corbyn. Algumas pesquisas sugeriram que Corbyn pode ter alguma chance de se tornar primeiro-ministro, embora os trabalhistas ainda estejam atrás dos conservadores.

Como Corbyn pode virar primeiro-ministro mesmo sem o Partido Trabalhista receber votos suficientes?
Algumas pesquisas, em particular as recentemente realizadas pela empresa YouGov, sugeriram que os conservadores não só deixarão de aumentar sua maioria atual, mas também irão perdê-la. Isso resultaria no chamado “parlamento em suspenso”.
Nesse parlamento em suspenso, os partidos podem se unir para formar o governo – daí o Partido Trabalhista poderia formar uma coalizão com os democratas liberais e outros partidos menores. É um cenário improvável, mas digno de nota, pois daria aos democratas liberais e, potencialmente, a outros partidos pequenos e pró-Europa, como o Partido Nacional Escocês, certo peso no governo.

Mas as pesquisas eleitorais britânicas não estão sempre erradas?
Nos últimos anos, os institutos de pesquisa britânicos não conseguiram prever os votos com precisão. A previsão mais desastrosa foi nas eleições gerais de 2015, quando muitos esperavam que Ed Miliband, antecessor Corbyn no Partido Trabalhista, assumisse o cargo de primeiro-ministro.

Os institutos de pesquisa ficaram mais atentos, pois passaram anos examinando dados para ver onde tinham errado. A conclusão geral é que as pesquisas superestimaram a participação dos eleitores jovens, que geralmente tendem a votar menos do que os eleitores mais velhos e se inclinam para o Partido Trabalhista e os democratas liberais.
Alguns institutos agora estão promovendo mudanças radicais em suas metodologias, com o objetivo de corrigir os erros do passado. A YouGov, por exemplo, está usando uma amostra extremamente ampla e um modelo bem mais complexo (notadamente, seus resultados são muito mais favoráveis aos trabalhistas). Mas é difícil dizer se essas mudanças vão funcionar.

O terrorismo no Reino Unido tem papel nessa eleição?
Ocorreram três importantes ataques terroristas no Reino Unido nos últimos três meses, agitando uma sociedade que, até certo ponto, fora poupada da violência vista em outras nações europeias nos últimos anos.

Em geral, acredita-se que os ataques terroristas dão um pouco mais de impulso aos partidos de direita. Corbyn pode estar particularmente em risco aqui, devido a suas declarações simpáticas ao Exército Republicano Irlandês e acusações de indulgência para com militantes islâmicos. No entanto, o passado de May como secretária de Estado também a sujeita a críticas, pois ela supervisionou os orçamentos que reduziram o número de policiais armados na Inglaterra e no País de Gales.

O presidente Trump é um fator importante?
Trump é muito impopular no Reino Unido – uma pesquisa de fevereiro revelou que metade do país o considera “perigoso” – e suas críticas ao prefeito de Londres, Sadiq Khan, depois do ataque terrorista do fim de semana anterior às eleições, soaram controversas em todo o país. Se May foi rápida em acolher Trump – chegando a voar até Washington para ser sua primeira visita oficial – Corbyn se distanciou do presidente, condenando o líder dos Estados Unidos por ser “imprudente e perigoso” ao retirar o país do acordo climático de Paris.

O que tudo isso significa para o Brexit?
É difícil dizer. A sombra do Brexit agora paira sobre quase tudo no Reino Unido. Os dois principais partidos apoiam a saída da União Europeia, apesar de diferirem nos detalhes de como deve ser a negociação. Somente o terceiro maior partido, dos democratas liberais, questiona a decisão, mas, em vez de uma reviravolta definitiva, propõe um novo referendo.
De um jeito ou de outro, as inesperadamente complicadas eleições gerais de 2017 podem servir como um lembrete de que não será fácil de prever o caminho do Reino Unido para fora da União Europeia.

Fonte: Estadão / Fundação Brasil Londres

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